sábado, maio 26, 2018

«Papai, quando vinha da fábrica. me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o abc com a sua bela voz.» Jorge Amado, Cacau (1933)

«Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário, e tendo sempre vivido em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera, por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

«Mas não era necessário ler o papel que o polícia trazia no bolso: Januário de Sousa, filho de Ana Maria e de pai incógnito, etc.; bastava deitar o rabo do olho à sua pele morena, lisa e macia, que nem a água passada a ferro na popa dos barcos, para se ver que ele não tinha mais de vinte anos, apesar de os seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do mundo.» Ferreira de Castro, A Experiência (1954)


sexta-feira, maio 25, 2018

estou a ler


«Tão pequenas / a infância, a terra.» Carlos de Oliveira, «Infância», Turismo (1942) / Trabalho Poético (1978)

«E o luar, o luar magnífico e sereno, / Só ele compreende a minha dor / Porque me beija o rosto nazareno;» Duarte de Viveiros. «Parada dos ângulos agudos» Obra Poética (1960, póstumo)

«Nós, meninos, paralisados de medo / e espanto.» Rui Knopfli, «O monhé das cobras», O Monhé das Cobras (1997)  

quinta-feira, maio 24, 2018

Descobrimentos Portugueses: o #metoo da historiografia

«Museu das Descobertas». A designação é obviamente simplória. Não pelas razões que aduzem aqueles que sacrificam ao politicamente correcto, como pela pobreza do conceito para caracterizar um complexo movimento político, social, económico, cultural, religioso, científico por detrás da expansão e dos descobrimentos portugueses. A ideia, aliás, inscrita em programa eleitoral, tem todos os contornos dum típico coelho tirado da cartola da politquice barata, para efeitos de pirotecnia de campanha, sem cuidar do como e do porquê.

Costumo dizer que graças aos Descobrimentos e à Expansão, os portugueses  garantiram a sua presença na história da Humanidade; somos uma espécie de fenícios dos tempos modernos, quando poderíamos ficar-nos pela dimensão duns quaisquer túrdulos da cultura castreja... Não vou, porém, falar da pertinência ou da oportunidade da criação de uma grande museu dos descobrimentos, quando o património cultural do país está na miséria que se sabe. Para já, interessa-me a questão levantada em torno do nome.

A discussão e o debate de ideias é sempre excelente, porém, quando, a coberto duma cientificidade de analfabetos se pretende distorcer a História, não me apetece ter grande contemplações para um texto  indigente, assinado por algumas figuras estimáveis. Felizmente, não tenho vocação de discípulo nem gosto de rebanhos. E, nessa perspectiva, também não me deixarei condicionar pelos arremedos autoritários, para não escrever 'totalitários', que lançam o labéu de fascistas ou fascizantes àqueles que deploram um embuste e um esquema mental que dá origem a idiotices como esta.

Em primeiro lugar, a haver um museu com esta temática, o seu interesse para a comunidade só se justifica se partir duma perspectiva portuguesa; caso contrário, é melhor tratar do merchadising com os americanos e pô-los a fazer uma espécie de Disneylândia inspirada nos tempos do Gama e do Albuquerque. Por que diabo um museu português não deveria ter uma perspectiva portuguesa, integrando numa visão planetária, essa mesma que contribuíram decisivamente para alcançar, gostemos ou não? Claro que uma abordagem objectiva e sem patriotinheirices, sem escamotear o horror, a pilhagem, o domínio, o tráfico de escravos -- actividade que nos distinguiu durante demasiado tempo. De resto, como é que depois de Vitorino Magalhães Godinho, de Luís de Albuquerque, de tantos historiadores, portugueses e estrangeiros, que se debruçaram sobre aqueles séculos de história portuguesa, se admite que doutra forma pudesse ser? Falamos de museu ou dum evento, entre os jogos-sem-fronteiras e o festival-da-canção?...

Ao contrário dos que escrevem os guardiões do moralismo anacrónico, a palavra não "cristaliza uma incorrecção histórica", pelo contrário. Houve, de facto, descoberta de territórios desabitados, desconhecidos de toda a Humanidade; tal como aconteceu o desvendar de rotas nunca por outros singradas; e o evidente descobrimento de um mundo mais amplo que rompia com uma percepção que remontava à Antiguidade. Se isto não é descobrimento é o quê, então? E não deve este pioneirismo ser conhecido da comunidade portuguesa, sem a basófia antihistórica dos manuais da República e do Estado Novo? 

É verdade que os outros povos não foram "descobertos", por isso se recorre, com razão, ao acoplamento da palavra "Expansão". Ao contrário dos "Descobrimentos",  que remontam à Idade Média (as "Navegações", em bom rigor, recuam ao Neolítico...), o movimento expansionista e imperial português tem uma data delimitada e uma ocorrência definida: 1415, ano da conquista de Ceuta (e mesmo assim com algumas raízes político-económicas que não há espaço para abordar). A partir daqui Expansão e Descobrimentos são duas faces duma mesma moeda. E nela está inscrita o colonialismo português, particularmente vil, cuja libertação se deveu aos povos colonizados e aos seus movimentos de libertação: PAIGC, MPLA, FRELIMO, movimentos tão de libertação que até contribuíram decisivamente para libertar os portugueses.

Obliterar a noção de descoberta não é só uma parvoíce, como a tentativa, de resto inglória, de rasurar da História um processo que nos identifica como comunidade, com um lastro cultural avassalador (como se lê e vê e sente nestes versos da Sophia de Mello Breyner Andresen e do António Pedro) ; uma espécie de #metoo da historiografia, em nome dos bons sentimentos. Ora, se a exclusividade dos bons sentimentos em arte borram a pintura, na historiografia ainda fazem pior, chama-se vigarice.
«Toda a gente foi domingo / alguma vez.» A. M. Pires Cabral, «Degradação», Arado (2009)*

«Têm as mão brancas de sal / E os ombro vermelhos de sol.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Os navegadores», Mar Novo (1958)**

«Nas ondas sozinhas / Nem um navegante / Nem aves marinhas...» António Pedro, «Canção dum mar ao largo», Ledo Encanto (1927)***

* Resumo -- A Poesia em 2009 (edição de José Alberto oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, 2010)
** Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa (ed. Ana Hatherly, 1960)
*** No Reino de Caliban I (ed. Manuel Ferreira, 1977)

terça-feira, maio 22, 2018

estampa CCCXIV - Júlio Pomar


Ferreira de Castro (1974)

estou a ler


«Seu colo tem do lírio a rígida firmeza, / Seu amor é um céu católico e distante...» Gomes Leal, «O visionário ou Som e cor», Claridades do Sul (1875) *

«A filha do usineiro de Campos / Olha com repugnância / Para a crioula imoral.» Manuel Bandeira, «Não sei dançar» Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira (1984)**


* Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (ed. Herberto Hélder, 1985)
** Poezz -- Jazz na Poesia em Língua Portuguesa (ed. José Duarte e Ricardo António Alves, 2004)

segunda-feira, maio 21, 2018

«No princípio de Julho, por um tempo extraordinariamente quente, ao anoitecer, saiu um rapaz do quarto modesto que ocupava na Rua de S...» Féodor Dostoievski, Crime e Castigo (1866) (trad. Maria Franco)

«Na minha opinião, não se podem criar personagens senão depois de ter estudado muito os homens, assim como não se pode falar uma língua senão depois de a ter aprendido a fundo.» Alexandre Dumas, Filho, A Dama das Camélias (1848) (trad. Sampaio Marinho)

«Isto só podia acontecer na Inglaterra, onde mar e homens se misturam, digamos -- onde o mar entra pela vida da maior parte dos homens e os homens sabem qualquer coisa ou tudo sobre o mar através do seu lazer, das viagens ou do pão de cada dia.»  Joseph Conrad, Mocidade -- Uma Narrativa  (1902) (trad. Aníbal Fernandes)

um verso de António Arnaut

«Só a linha recta ousa o infinito!» Nobre Arquitectura (2003)
«Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

Ao longe, por detrás do segundo barco, mostravam-se as Desertas, negras na manhã radiosa, mas pousadas em mar tão manso que, mais do que ilhas atlânticas, dir-se-iam contrafortes dum lago.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projectada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.» Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo (1865)

domingo, maio 20, 2018

os dramáticos gritos das fêmeas

São várias as mulheres, não se vêem. Já uma vez tinha ouvido estes gritos lancinantes, quando, há uns anos, foram detidos uma série de indivíduos, no Porto, creio que no caso da máfia da noite, ou coisa que o valha. Então como agora, à porta do tribunal do Barreiro, os mesmos gritos, dramáticos, quase guturais. Gritos que não sei interpretar: se de desespero ou de conforto, se juras de fidelidade na adversidade ou ritual colectivo de raiva contra o mundo.

estampa CCCXIII - Léon Bakst


Modelo (1905)

sábado, maio 19, 2018

estou a ler


«Entre feridas brumas, um muro branco branco escorre do sol.» Vergílio Alberto Vieira, Coágulos (2002)

«Sem esta terra funda e fundo rio, / Que ergue as asas e sobe, em claro voo; / Sem estes ermos montes e arvoredos, / Eu não era o que sou.» Teixeira de Pascoais, As Sombras (1907)*

«-- Eu faço versos como quem morre.» Manuel Bandeira, «Desencanto», A Cinza das Horas (1917)**

* Antologia Poética, ed. Ilídio Sardoeira [1977]
** Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira, ed. Francisco de Assis Barbosa (1984; 4.ª ed, 1986)


quanto tempo resiste um populista?

O caso Bruno de Carvalho (estreia absoluta neste blogue) deve ser um regalo para os sociólogos, politólogos e outros observadores. Sem fazer grandes juízos de valor sobre tudo o que se passa no espaço público -- a não ser que este país é extraordinariamente cansativo pela boçalidade que se estende do bom povo às más elites --, neste momento só uma coisa me suscita interesse: ver como resiste o populista Bruno de Carvalho (emprego o termo 'populista' da forma mais neutral possível), ao ataque do mundo dos futebóis, da imprensa, da política e, eventualmente, do judicial. Por quanto tempo? À partida, diria que está por um fio; ninguém tem tanta força para arrostar com alguns dos sectores mais fortes da sociedade; mas quantos dos tais 3,5 milhões estão com ele?; e quem e quantos, do submundo da finança, continuam a sustentá-lo? A questão que prende o país nos próximos dias. 

«Going Places»

«o teu retrato transita de solidão em solidão» m. parissy, «canção do mar» Cafurnas (2002)

«A luz do mundo nestas margens irreais do rio triste / Nas águas brilha é um rumor é um clamor metal intenso» Luís de Miranda Rocha, Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)

«Passei pela minha vida / Um astro doido a sonhar.» Mário de Sá-Carneiro, «Dispersão», Dispersão (1914)

quinta-feira, maio 17, 2018

50 discos: 26. SONGS FROM THE WOOD (1977) - #6 «Velvet Green»



«Por vezes as cartas geográficas representam / uma aldeia marítima entre rochas / muros brancos / onde uma criança desenha um barco esconde / o mar.» João Miguel Fernandes Jorge, Alguns Círculos (1975)

«Depois, / com valados, elevações e planuras, e mais rios // entrecortando a savana, e árvores e caminhos, / aldeias, vilas e cidades com homens dentro, / a paisagem estendia-se a perder de vista / até ao capricho de uma linha imaginária.» Rui Knopfli, «Pátria», O Escriba Acocorado (1978)

«Quantos há que passaram entre as turbas, / Os felizes do mundo, as alegrias, / E ninguém os viu rir!» Gomes Leal, «Trevas», Antologia Poética (s.d.) (ed. Cecília Barreira)
«O local não era desagradável, era mesmo perfeito, desde que não se encarasse como uma decepção, mas sim como um sonho.» G. K. Chesterton, O Homem que Era 5.ª Feira (1908) (tradução de Domingos Arouca)


«Tinha uma voz profunda, sonora, e os seus modos revelavam uma espécie de afirmação obstinada de si mesmo em que não havia agressividade.» Joseph ConradLord Jim (1900) (tradução de Cármen González)


«Tudo nele se  caracterizava pela ênfase: o modo autoritário, a voz decidida, inflexível, os cabelos eriçados em torno de uma brilhante careca.» Charles Dickens, Tempos Difíceis (1854) (tradução de Domingos Arouca)

quarta-feira, maio 16, 2018

contentamentos de pai


«Perfeito o horizonte se descerra / tecnicamente pela mão de Deus» António Barahona, Noite do Meu Inverno (2001)

«Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo... / E o meu corpo ondulante de sereia / Dorme em teus braços másculos de vândalo... » Florbela Espanca, Juvenília (1931, póst.)

«Um sentido clamor, como suspiro / De amargurado tom, vem da amurada / Do alteroso galeão.» Almeida Garrett, Camões (1825)

terça-feira, maio 15, 2018

Israel compromete o seu direito à existência

Fui um admirador do estado de Israel, pelo menos até à reiterada confiança que o seu eleitorado tem dado a um tipo pouco recomendável, chefe de governos que albergam organizações ultranacionalistas e religiosas.
Até agora, fui um defensor da existência de Israel; mas quando vejo um estado abater como gado gente que se manifesta contra a ocupação da terra que lhe foi roubada e da qual foi expulsa (não precisam de ser mulheres, crianças e velhos) --, não só não me apetece continuar a defendê-lo, como estou a um passo de considerar a sua existência nociva.
«Era o pino do inverno / e a cidade atravessava uma idade glacial // do coração.» Rui Pires Cabral, «"Em algumas das fotos aparecíamos juntos."», Oráculos de Cabeceira (2009)

«E quando páro e faço a propaganda / dos lugares mais comuns da poesia / há um terror quase obsceno / nos seus olhos maternais» Alexandre O'Neill,, «Em pleno azul», Tempo de Fantasmas (1951)

«Na noite da consciência / versos só podem ser pragas.» José Fernandes Fafe, «Sonetilho velho e actual», A Vigília e o Sonho (1951)